Não somos todos nós um pouco autistas?

Esse foi um dos primeiros comentários que ouvi quando expus meu diagnóstico. Na verdade, ouvi de várias pessoas: “será que não somos todos nós um pouco autistas?”. A resposta é não, não somos.

O autismo é uma diferença perceptiva, social e cognitiva, que está tão enraizada em nossas mentes, que não conseguimos separar da nossa personalidade.

“Mas você olha nos olhos”… “também tenho algumas manias”… “às vezes sou um pouco antissocial”… “agora isso virou desculpa para tudo”… “você me parece tão normal”…

Minha vida sempre foi uma constante tentativa de adaptação, uma perseguição diária e frustrante pela “normalidade”. Entender que somos mentes fora do padrão é libertar-se desse sofrimento de tentar freneticamente encaixar-se em moldes.

Ainda posso, como um camaleão, adaptar-me a qualquer ambiente. Mas consigo compreender as muitas consequências psicológicas e até físicas que isso pode me causar. E consigo julgar e determinar o que merece e o que não merece meu limitado desprendimento de energia. Assumir essa identidade só é possível buscando o autoconhecimento. É dessa forma que entendemos nossas limitações e aprendemos a conviver com elas da melhor forma.

Não somos seres modeláveis e adaptáveis como a maioria das pessoas. Nossa vida se assemelha mais a uma caixinha, segura e previsível. Podemos sair de nossas caixinhas sempre que precisamos, e aí que deve estar o controle de dosagem.

Não, não são todas as pessoas um pouco autistas. Nem toda dor nas costas é problema de coluna, nem toda falta de ar é asma, certo? Autismo se tem ou não se tem. É necessário entender que essa diferença existe, mas que mesmo com autismo somos seres humanos completos, inteiros e dignos de respeito.

A melhor forma de oferecer apoio não é dizendo que isso é comum, que é fácil, que tem cura, que vamos sobreviver, que todo mundo tem, que podemos superar ou qualquer coisa neste sentido. É entendendo que, de fato, existem limitações que são invisíveis, mas que permanecerão por toda nossa existência.

Somos singulares! Da compreensão nasce o respeito e do respeito nasce aquela tão sonhada sociedade mais inclusiva e empática…

Por Amanda Puly

 

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2 Comentários

  • Posted 8 days ago

    Simone

    Olá Amanda, tudo bem? Como sempre, adoro seus posts, super sensatos e informativos!
    Poderia nos contar um pouco como foi a sua busca pelo diagnóstico? Também tenho esta dúvida por causa de algumas características minhas, e até por causa de minha genética, que mostrou algo diferente…
    Na verdade não procuro um diagnóstico por motivo específico, apenas para auto-conhecimento mesmo, já que o espectro justificaria alguns comportamentos meus desde sempre.
    Seria via psiquiatra ou neuro, e mais aqueles testes de perguntas/respostas?
    Super agradeço! 🙂

    • Posted 4 days ago
      Amanda Puly

      Amanda Puly

      Oi Simone! Eu fiz no Centro Conviver, que é especializado em autismo aqui em Curitiba. Não é qualquer neuro que consegue identificar, tem muitos que não têm preparo, infelizmente. A avaliação foi feita através de questionários, que aos poucos foram sendo refinados, e de entrevistas. Dessa forma é traçado o perfil, já que podemos ser muito diferentes e estar dentro do mesmo espectro.
      Espero ter ajudado um pouco!
      Ah… sugiro que você realmente busque essa avaliação, pois para mim foi algo muito esclarecedor!
      Um beijo!

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