Descobri que tenho autismo anos após o diagnóstico do meu filho

A estatística do autismo é de 1 menina para cada 4 meninos. Esses números não representam somente a prevalência no sexo masculino, mas também a dificuldade da obtenção do diagnóstico no sexo feminino.

É culturalmente mais aceitável – e até esperado – que as meninas sejam mais tímidas, mais organizadas, mais reservadas. Mas pode acontecer de características do autismo estarem sendo confundidas com traços de uma personalidade introvertida. Esta é uma das grandes dificuldades de identificação do diagnóstico neste gênero. O problema é que o silêncio muitas vezes esconde angústias, ansiedade, insônia, oscilações de humor e até depressão!

Muitos pais começam a suspeitar que podem estar dentro do espectro autista após seus filhos terem recebido um diagnóstico. É comum que os adultos, após buscarem informações para ajudar seus filhos, confrontem experiências do seu passado e do seu presente com características que se enquadram no espectro.

Depois de muito ler, estudar e escrever sobre os Transtornos do Espectro Autista, comecei a relacionar e entender muitos acontecimentos da minha vida. A busca pelo diagnóstico é um processo um tanto doloroso de autoconhecimento. Dói reviver algumas memórias. Dói remexer no passado. Dói entender as emoções do presente. Mas é uma dor necessária quando sentimos que precisamos de ajuda!

Foram alguns meses de busca pelo meu autoconhecimento, de reflexão sobre mim mesma, de um resgate da minha própria identidade. E como em um quebra cabeças, onde as pecinhas vão aos poucos se encaixando, cada memória passou a fazer sentido.

O objetivo principal não é o diagnóstico em si, mas o autoconhecimento. E isso é – de certa forma – libertador. É entender-se. É deixar de tentar ser como os outros ou adequar-se o tempo inteiro. É buscar sua própria autenticidade.

POR QUE BUSCAR UM DIAGNÓSTICO?

Algumas pessoas podem ter atravessado suas vidas sem nenhum diagnóstico, mas sentindo que de alguma forma não se encaixavam nos padrões da sociedade. Muitas aprenderam a trilhar seus caminhos, embora possa ter sido um trabalho árduo. Elas podem estar casadas, terem construído suas famílias e até uma carreira de sucesso. Procurar um diagnóstico ou manter-se na dúvida é uma escolha pessoal, mas uma avaliação correta pode ser muito útil! Algumas razões para buscá-la:

  • COMPREENDER A SI MESMO

Um diagnóstico formal pode ser um alívio pois permite à pessoa aprender sobre sua condição e compreender muitas de suas dificuldades. É possível melhorar a qualidade de vida através de pequenas adaptações em seu cotidiano. Ele também pode corrigir um ou mais diagnósticos equivocados que tenha recebido ao longo de sua vida.

  • SER COMPREENDIDO

Ser constantemente mal compreendido pode trazer muitas consequências. É muito importante que as pessoas mais próximas (familiares, amigos, colegas de trabalho) entendam que existe uma motivação para as dificuldades da outra. É muito mais fácil ter empatia quando compreendemos a razão das dificuldades de alguém.

  • BUSCAR AJUDA PROFISSIONAL

Seja o diagnóstico de Síndrome de Asperger ou Autismo Clássico, a pessoa que estiver dentro do espectro pode buscar os tratamentos adequados, que ajudem nas suas dificuldades diárias. Além disso, existem benefícios que só são concedidos a quem possui o diagnóstico formal.

  • ENCONTRAR OUTRAS PESSOAS

Encontrar outros adultos também dentro do espectro e com elas dividir experiências pode ser muito proveitoso. Existem também grupos onde é possível compartilhar os mesmos interesses.

Como obter um diagnóstico?

O autismo é um espectro amplo de traços e características. Portanto, podem existir adultos com perfis muito diferentes buscando o mesmo diagnóstico. O profissional responsável pelo diagnóstico é o neurologista, mas a avaliação é mais precisa se for feita por uma equipe multidisciplinar.

Nunca é muito tarde para que alguém busque conhecer melhor a si mesmo. Ampliar o autoconhecimento é buscar melhorar seus desafios, seus relacionamentos e sua própria qualidade de vida.

Assumo o autismo como parte do meu ser, da minha personalidade. Estou leve. Não sinto mais como se tivesse caído no planeta errado…

Por Amanda Puly

Artigos Relacionados

Responder