A culpa pelo segundo filho

Por Paula Puly

Comecei a escrever este post a alguns dias, mas não quis finalizá-lo sozinha. Então fui conversar com a psicóloga Clara Regina C. Brandt, por quem tenho grande admiração como profissional (e também como pessoa).

É comum uma criança sentir ciúmes quando chega um irmão mais novo em sua vida. Assim como também é comum que a mãe sinta uma certa culpa, pois antes sua atenção era totalmente voltada a um único filho e, quando chega o bebê, ele toma quase todo o seu tempo, reduzindo drasticamente a atenção que dava ao primeiro. Mas essa culpa da mãe logo vai passando, à medida em que o filho mais velho vai compreendendo que o mais novo precisa de uma atenção maior e que nem por isso o amor de sua mãe por ele diminuirá.

Porém, a psicóloga Clara explica que, quando o primeiro filho tem algum tipo de necessidade especial e o segundo nasce “normal”, essa culpa que a mãe sente é ainda maior e mais difícil de superar. Clara diz que, quando o primeiro filho tem algum tipo de limitação seja ela qual for, não interagindo tanto com a mãe quando bebê, acaba não correspondendo às expectativas da mesma.

Ao nascer o segundo filho, sendo ele uma criança típica, acaba superando as expectativas da mãe, pois progride rápido e responde aos estímulos. E então a impressão que dá é a de que este filho é mais amado pela mãe em relação ao primeiro. O que não é verdade. Assim surge essa culpa do nosso subconsciente, que por sua vez alimenta o consciente: “Você é culpada!”. E a mãe sente-se culpada por estar sentindo-se tão realizada com o desenvolvimento desse filho, tão diferente do primeiro. Mas nenhuma mãe deve sentir-se assim, pois a culpa não é dela.”Culpado” é quem faz de propósito.

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Quando a Pietra nasceu, a Maria Clara já havia completado quatro anos. Porém seu cognitivo acompanha o de uma criança de aproximadamente dois anos de idade.

Durante a gestação, conversei bastante com ela, explicando sobre a irmãzinha que viria, sobre a ajuda que ela poderia dar no banho, na troca de fraldas e em outros momentos. Talvez eu tenha criado uma expectativa muito grande na cabecinha dela, talvez ela tivesse esperando poder interagir com a irmã assim que ela nascesse, não sei até que ponto ela compreendeu.

Quando foi nos visitar na maternidade (dá pra ver a chegada dela aqui, mas está um pouco desfocado), no primeiro dia após o nascimento da Pietra, a Maria chegou toda fofa, com um pouco de receio e muita curiosidade. Com uma serenidade que durou poucos minutos… logo virou um “furacãozinho”. Queria pegar a coberta, as fraldas e o que mais visse pela frente que pertencesse à bebê. Fez xixi na calça três vezes em lugares diferentes, inclusive na cama. Deixamos que ela pegasse um pouco a irmãzinha no colo como queria, com o apoio de um adulto, mas a mãozinha dela não parava, e eu fiquei num estado de constante tensão, procurando não repreendê-la, apenas tentando explicar a diferença entre a bebê e uma boneca. Mas foi em vão, pois a ansiedade era tanta que ela mal me ouvia. Fiquei muito feliz em vê-la, mas sinceramente me senti de certa forma aliviada a hora que ela foi embora, pois só assim consegui respirar e relaxar. E foi aí que “ela” surgiu e não me largou mais: a CULPA!

Já em casa, fragilizada pelo pós parto, preocupada com o pensamento de como eu daria conta de cuidar da casa e das duas meninas (uma recém nascida e outra que exigia muita atenção e não estava conseguindo lidar com suas emoções), a tensão constante voltou e claro, a CULPA veio ainda mais forte.

CULPA porque a Maria estava me parecendo uma criança diferente. Grande! Agitadíssima! E eu queria muito conseguir pegá-la no colo e acalmá-la mas não podia, por causa da recuperação de cesárea e pelo tempo que ficava amamentando e trocando a Pietra. E a tal da CULPA me pegava mais forte ainda quando via que outra pessoa (meu marido, minha mãe ou algum outro parente que vinha nos visitar) tinha que dar essa atenção que ela tanto pedia porque eu, a mãe, não podia.

Os dias foram passando e a “obsessão” da Maria Clara em pegar tudo o que é da irmã foi diminuindo. Também diminuiu a necessidade de ficar mexendo o tempo todo na nenê (não que eu não queira o contato entre elas, mas me preocupa a forma meio “bruta” que ela o faz, fico com medo que machuque a pequena).

Ainda não posso deixá-las sozinhas no mesmo cômodo nem por um minuto, mas as coisas se tranquilizaram um pouco. Às vezes, a Maria me “ajuda” a dar banho, a passar pomadinha na hora da troca de fraldas, a arrumar as roupinhas da bebê e outras coisinhas que ela adora fazer. É claro que assim eu demoro duas vezes mais em cada tarefa, mas a alegria dela em “ajudar” não tem preço.

O mais difícil é quando estamos sozinhas as três. Quando estou amamentando ela me chama para brincar, quer subir no meu colo, quer “mamar” também. Haja jogo de cintura pra lidar com isso! E a tal da CULPA até diminuiu um pouco, mas não me abandonou. Ela volta cada vez que a Maria Clara pede para brincar comigo e eu não posso, cada vez que lembro que preciso estimulá-la de várias formas e não dá tempo, cada vez que deixo ela ficar por mais tempo brincando com aplicativos no celular porque assim ela se distrai sem precisar de mim. Sei que estou em falta com minha filha.

O que me tranquilizou após a conversa com a psicóloga Clara foi a constatação de que, quando a Pietra crescer um pouquinho mais (lá pelos nove meses) e começar a interagir mais com a Maria Clara eu até precisarei supervisionar, brincar junto e interferir quando necessário, mas não sentirei mais essa CULPA, já que esta terá a atenção da irmã, não precisando mais exclusivamente da minha.

O jeito é relaxar e deixar as coisas seguirem seu curso. Tudo a seu tempo. Sem pressa, sem culpa!

* A psicóloga Clara Regina C. Brandt atende em consultório próprio, em Curitiba.

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13 Comentários

  • Posted 3 de Agoust de 2015

    Debora Milone

    Oi Paula, puxa, que texto legal! Parece que a culpa é companheira constante da maternidade. E realmente no segundo filho, ela ganha proporções ainda maiores! Eu vivi um sentimento enorme de culpa na segunda gravidez, por não dar a mesma atenção à chegada do bebê quanto na primeira vez, por não ter o mesmo tempo para preparar o enxoval, por não preparar o quarto com tanto cuidado e até por não curtir tanto a gravidez quanto na primeira vez. Parecia que eu estava tratando o bebê que viria com menos carinho e atenção que o primeiro. Depois vêm a culpa com relação a não dar a mesma atenção para os dois, depois por sair para trabalhar, enfim, quando nasce um bebê, nasce uma mãe cheia de sentimento de culpa!

    • Posted 3 de Agoust de 2015
      clubematerno

      clubematerno

      Oi Debora, é isso mesmo! Vivemos nos culpando por tantas coisas…
      Precisamos entender que não somos. Que nos esforçamos pra fazer o melhor possível!
      Obrigada pelo seu comentário!
      Seja sempre bem vinda!

  • Posted 3 de Agoust de 2015

    Maíra

    E qd o mais novo exige mto mais que um bb normal? qd a mae tem que deixar. os cuidados da mais velha para o.pai.ou avós pq esta no.hospital com bb? Augusto ja esta com seis meses mas as coisas continuam ou ate mesmo pioraram nesse tempo.

    • Posted 3 de Agoust de 2015
      clubematerno

      clubematerno

      Nossa Maíra, a sua situação é mesmo muito complicada! Nem dá pra imaginar quantos sentimentos se misturam nessa hora. Estamos torcendo pela melhora da saúde do Augusto. Que Deus abençoe a ele, a você e sua família!

  • Posted 4 de Agoust de 2015

    tostesraphael

    Sabe, este texto me fez pensar muito. Thaís não quer ter outros filhos, ainda estamos caminhando para uma maior estabilidade financeira, que verdadeiramente influencia bastante. Contudo a questão da culpa no lidar com dois filhos de idades tão diferentes ao mesmo tempo nunca havia me passado pela cabeça. Nem posso opinar quanto a esta questão em si, mas sei que cada um sente “culpa” por algum momento na maternidade/paternidade, e tenho sentido isso quando chego em casa cansado e não consigo dar a devida atenção à Larissa, que tem energia que nunca se acaba. Solução? Não conheço. Agradeço, novamente, os ensinamentos.

    • Posted 4 de Agoust de 2015
      clubematerno

      clubematerno

      Raphael, não existe mesmo uma solução pra essas situações… mas é muito legal compartilhar experiências e ver que estamos todos “no mesmo barco”. Às vezes a experiência de um acaba ajudando o outro. Obrigada por dividir seus pensamentos conosco!

  • Posted 13 de Agoust de 2015

    Michele

    Adorei o post Paula, acredito que essa culpa não seja só sua não, é a culpa de todas as mães do segundo ou terceiro filho. Devido a nossa rotina agitada, seja no trabalho ou em casa mesmo, temos tantas coisas pra fazer, os bebês exigindo toda nossa atenção e olhamos para o lado, ali está, aquele serzinho que achávamos tão grande, com aquela carinha de ” e agora, onde me encaixo nessa bagunça “!! Um sempre irá exigir mais que o outro ( palavras da minha mãe), mas com amor, carinho, muita paciência vamos ajeitando as coisas. Sigamos nosso coração, né… Eu estou fazendo assim, a culpa ainda caminha ao meu lado, menor, absorvida pela agitação de criar, educar e amar muito esses nossos presentes. Um grande beijo minha amiga!!!

    • Posted 13 de Agoust de 2015
      clubematerno

      clubematerno

      Oi! É tão tranquilizador quando alguém entende exatamente o que se passa com a vida da gente. Nós, mães nos entendemos bem né?
      Muito obrigada pelo seu comentário! Seja sempre bem vinda por aqui! Qualquer hora manda uma fotinho dos seus pimpolhos pra gente publicar!
      Beijos

  • Trackback: E a vida continua… | Clube Materno

  • Posted 13 de November de 2015

    Vanessa

    Descobri agora que estou grávida de 5 semanas e estou com medo da reação do meu filho que vai fazer 7 anos. Tenho medo de não poder atende-lo, de deixar ele de lado e de que ele se sinta rejeitado.
    Parabéns pelo post Paula.

    • Posted 13 de November de 2015
      Clube Materno

      Clube Materno

      Obrigada, Vanessa! Que sua gestação seja abençoada e que tudo dê certo com seus dois filhos! No começo é bem difícil mesmo, mas com o tempo, graças a Deus as coisas vão se encaixando. Beijos

  • Posted 14 de Agoust de 2017

    Silvia

    Oi! Adorei seu texto! Estou com uma de 1 ano e 7m e um Rn! Gasto mto tempo e energia consumida em culpa! Por ter tido outro e não conseguir mais dar atenção a minha filha ou por não ter o mesmo vinculo com o pequrno que tinha com ela! Choro mto, me sinto mal e agora minha filha parece q sente mta raiva! Ela fica com minha mãe e é só me ver de longe que começa a dizer que não e chorar para não pegar ela! Eramos mto grudadas antes! Obrigada por dividir sua experiência! Espero me adaptar!

    • Posted 14 de Agoust de 2017
      Amanda Puly

      Amanda Puly

      Olá Silvia!
      Esse texto foi escrito há dois anos e de lá pra cá muita coisa mudou. Vou te contar um segredo… essa culpa vai passar. A gente aos poucos se adapta, aceita algumas coisas que não consegue mudar, muda aquelas que não conseguimos aceitar e tudo vai se encaminhando da melhor forma. Outras dificuldades irão surgir, mas ficamos mais resilientes! Tenha calma e paciência, ok? Eu daria somente um conselho: tente relaxar e curtir mais, pois essa fase dos pequenos passa muuuuito rápido! Um beijo grande!

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